Aníbal Machado

O Transitório Definitivo

O meu fim é Santa Maria, castelo de passarinhos…
Me casaram várias vezes. Aos homens que feri em brigas pelo caminho, eu dizia: – Não há de ser nada; estou de passagem para Santa Maria.
E às mulheres que abracei: – Fiquem com os filhos. Eu levo a lembrança. Estou indo para Santa Maria, castelo de passarinhos.
Entre as muitas aldeias de pouso, numa acordei com banda de música e gente debaixo da sacada: – Senhor, sabemos que estais de passagem. Aqui ninguém presta. Aceitai ser o nosso chefe.
– Eu também não presto, respondi. E estou de passagem. Deixai-me dormir…
E bati-lhe a veneziana.
Fiquei. Armei pontes, retifiquei o rio. Construí piscinas e um auditório onde preguei a centenas de ouvintes.
Falaram-me de algumas precisões: um chafariz, uma igreja, uma escola, talvez uma nova seita. Que eu poderia etc…
Abri jardim para os namorados, horrorizei-me de meu próprio busto erguido entre as flores do canteiro principal.
E quando a moça mais linda que eu estreitara nos braços gemia: “Ó tu que para sempre será meu!”, logo eu atalhava: “Não pode ser, minha filha, não pode ser… Estou seguindo para Santa Maria, castelo de passarinhos…”.
Mais adiante, me condenaram. Respondi aos juízes:
– Para quê, se estou de passagem para Santa Maria? Mais vale, em vez da pena, um banho delicioso no rio.
E segui caminho.
Há mais de cinqüenta anos que estou indo para Santa Maria. O que não é sacrifício para quem sabe que há de chegar.
E enquanto não chego, vou-me distraindo à minha maneira, ora rindo, ora gemendo.
Os pequenos acontecimentos avultam aos meus olhos, os grandes se amesquinham.
Tomo parte na vida das cidades, nos negócios dos homens. E se acaso tropeço, não é contra as pedras, é contra a minha sombra.
Prendo-me aos seres e objetos com o fervor de quem vai perdê-los para sempre. Porque afinal este mundo, tal como está, se eu gosto dele um bocadinho, é no momento mesmo em que penso largá-lo. Mas isso eu nunca digo.
E vou andando…
Se alguém pergunta quem sou, respondem todos: – Não se sabe. Vive dizendo que está indo para um castelo de passarinhos…
Sempre assim.
Quando a vida me aborrece, largo tudo de repente, apanho a trouxa, e vou tocando devagarinho para Santa Maria, castelo de passarinhos…

 

A Casa Rouca

Ficara o galo, sobrevivência da ruína.

Rouco o seu canto. Canto que não parecia mais de galo, senão a própria voz da casa abandonada. Casa rachada ao sol, aluindo-se ao vento de chuva.

Não mais agora figuras humanas entrando; apenas lagartixas e morcegos para recepção às sombras.

Casa rouca submersa no matagal, teu galo ficou. E seu canto perdeu o timbre de sol, já não inaugura os dias. E se fez adequado aos estragos do reboco, à podridão das esquadrias – última secreção de pareces gemidas.

Galo rouco. Casa rouca.

 

Descosendo o espaço

O pássaro agonizante põe pela boca os milhares de quilômetros que devorou pelos ares.

 [in: Cadernos de João. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002]


Biografia

Aníbal Monteiro Machado (Sabará, 9 dez 1894 — Rio de Janeiro, 20 jan 1964)
 foi um escritor, futebolista, professor e homem de teatro brasileiro. Realizou  os estudos secundários em BH, no Colégio D. Viçoso, e no Externato do Ginásio Mineiro, hoje Colégio Estadual. Iniciou o curso superior na Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro, transferindo-se depois para a de Belo Horizonte, onde se formou em dezembro de 1917. Tornou-se então professor de História Universal num colégio estadual de Minas Gerais e crítico de artes plásticas no Diário de Minas, onde trabalhou com os poetas Carlos Drummond de Andrade e João Alphonsus de Guimaraens. Depois foi promotor público, primeiro em Minas Gerais, e em seguida no Rio de Janeiro, na época capital do país (1924).
Apesar de sua atuação no meio literário, o primeiro livro, um ensaio sobre cinema, surgiu apenas em 1941, quando já tinha 46 anos. Na ficção, sua estreia em livro foi Vida Feliz (1944), seguindo-se Histórias Reunidas (1955), Cadernos de João (1957) e, postumamente, João Ternura (1965). Marcou sua presença de destaque no panorama do conto brasileiro com textos antológicos, como Viagem aos Seios de Duília, Tati, a Garota e A Morte da Porta-Estandarte.
Teve seis filhas, entre elas a famosa escritora e teatróloga Maria Clara Machado, uma grande cultuadora e guardiã de sua obra.
Aníbal Machado foi também jogador de futebol, e participou do primeiro time titular do Clube Atlético Mineiro, em 1909, entrando para a história do clube por ter marcado o primeiro gol da história do “Galo”. Jogou por três anos, até se formar em Direito, participando também da diretoria do clube.
(In: http://pt.wikipedia.org/wiki/An%C3%ADbal_Machado – 9 de maio de 2011, 17h17)