Baudelaire

O Albatroz

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem

Pegam um albatroz, enorme ave marinha,

Que segue, companheiro indolente de viagem,

O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,

Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,

Deixa doridamente as grandes e alvas asas

Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!

Ave tão bela, como está cômica e feia!

Um o irrita chegando ao seu bico em cachimbo,

Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O poeta é semelhante ao príncipe da altura

Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;

Exilado no chão, em meio à corja impura,

A asa de gigante impedem-no de andar.

Tradução de Guilherme de Almeida

O Gato

Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço;

Guarda essas garras devagar,

E nos teus belos olhos de ágata e aço

Deixa-me aos poucos mergulhar.

Quando meus dedos cobrem de carícias

Tua cabeça e o dócil torso,

E minha mão se embriaga nas delícias

De afagar-te o elétrico dorso,

Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo

Como o teu, amável felino,

Qual dardo dilacera e fere fundo,

E, dos pés a cabeca, um fino

Ar sutil, um perfume que envenena

Envolvem-lhe a carne morena.

Epílogo

De coração contente escalei a montanha,

De onde se vê — prisão, hospital, lupanar,

Inferno, purgatório — a cidade tamanha,

Em que o vício, como uma flor, floresce no ar.

Bem sabes, ó Satanás, senhor de minha sina,

Que não vim ter aqui para lagrimejar.

Como o amásio senil de velha concubina,

Vim para me embriagar da meretriz enorme,

Cujo encanto infernal me remoça e fascina.

Quer quando em seus lençõies matinais ela dorme,

Rouca, obscura, pesada, ou quando em rosicleres

E áureos brilhos venais pompeia uniforme,

•  amo-a, a infame capital — Às vezes dais,

Ó prostitutas e facínoras, prazeres

Que nunca há de entender o comum dos mortais.

Tradução de Manuel Bandeira e Righi De Marco

O Morto Alegre

Na planície em que o lento caracol vagueia,

Quero eu mesmo cavar um buraco bem fundo,

Onde possam meus ossos repousar na areia,

Como o esqualo a dormir no pélago profundo.

Odeio o testamento e a tumba me nauseia;

Ao invés de implorar uma lágrima ao mundo,

Prefiro em vida dar aos corvos como ceia

Os trapos que me pendem do esqueleto imundo.

Ó vermes! vós a que não chegam luz ou ruído,

Eis que vos toca um morto alegre e destemido;

Filhos da podridão, demiurgos do artifício,

Vinde pois sem remorso ungir-me os membros tortos,

E dizei-me depois se resta algum suplício

A este corpo sem alma e morto dentre os mortos

O Relógio

Os chineses vêem as horas pelos olhos dos gatos.

Certo dia, um missionário, passeando no distrito de Nanquim,

notou que havia esquecido o relógio e perguntou as horas a um rapazinho.

Ao primeiro instante, o garoto do Celeste Império hesitou;

depois, pensando melhor, respondeu:

-Vou dizer.

Decorridos alguns momentos, reaparecia, segurando nos braços um gato,

muito gordo; e, fitando o animal, como se usa dizer, no branco do olho,

afirmou sem hesitação:

-Ainda não é exatamente meio dia.

E era verdade.

Por mim, ao inclinar-me para a bela Felina, a de nome tão adequado,

aquela que é ao mesmo tempo a honra do seu sexo, o orgulho do meu coração e o perfume do meu espírito,

-quer de noite, quer de dia, em plena luz ou na sombra opaca,

no fundo de seus olhos adoráveis

vejo sempre, nitidamente, a hora, sempre a mesma, uma hora vasta, solene,

grande como o espaço, sem divisões de

minutos nem de segundos, uma hora imóvel que não é marcada nos relógios,

e todavia leve como um suspiro, rápida como um olhar.

E, se algum importuno me viesse interromper enquanto o meu olhar repousa sobre

este delicioso relógio, se algum Gênio descortês

e intolerante, algum Demônio do contratempo me viesse dizer:

-“Que é que estás a mirar com tamanha atenção?

Que buscas nos olhos dessa criatura? Vês acaso neles a hora,

mortal prodígio e vagabundo?”

– eu responderia sem hesitar:-“Sim, vejo a hora: é a Eternidade.”

Pois não é, senhora, que fiz um madrigal verdadeiramente

meritório e tão cheio de ênfase quanto vós mesma?

Na verdade, tive tanto prazer em bordar esta preciosa galanteria que não

o vos pedirei nada em troca.

A Alma do Vinho

A alma do vinho assim cantava nas garrafas:

“Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,

Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas,

Um cântico em que há só fraternidade e luz!

Bem sei quanto custa, na colina incendida,

De causticante sol, de suor e de labor,

Para fazer minha alma e engendrar minha vida;

Mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,

Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo

À goela do homem que já trabalhou demais,

E seu peito abrasante é doce tumba que acho

Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.

Não ouves retinir a domingueira toada

E esperanças ungir em meu seio, febris?

Cotovelos na mesa e manga arregaçada,

Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:

Hei de acender-te o olhar da esposa embevecida;

A teu filho farei voltar a força e a cor

E serei para tão tenro atleta da vida

Como o óleo que os tendões enrija ao lutador.

Sobre ti tombarei, vegetal ambrosia,

Grão precioso que lança o eterno Semeador,

Para que enfim do nosso amor nasça a poesia

Que até Deus subirá como uma rara flor!”

Tradução Guilherme de Almeida

A Serpente que Dança

Que eu te amo ver, lânguida amante,

Do corpo que excele

Como um tecido vacilante,

Transluzir a pele!

Sobre o teu cabelo profundo

De acre, perfumado,

mar odorante e vagabundo,

Moreno e azulado,

Como um navio que desponta,

Ao vento matutino

Em sonho minha alma se apronta,

Para um céu sem destino.

Nos teus olhos ninguém lobriga

Doçura ou martírio,

São jóias frias que são liga

De ouro e letargírio.

Ao ver teu corpo que balança,

Bela de exaustão,

Dir-se-ia serpente que dança

Em torno de um bastão.

Todos os ócios com certeza

Tua fronte movem

Que passeia com a moleza

De elefante jovem,

E o teu corpo se alonga e pende

Tal nave se mágoas,

Que as margens deixa e após estende

Suas vergas na água.

Onda crescida da fusão

De gelos frementes

Se a água de tua boca então

Alcança os teus dentes,

Bebo uma taça rubra e cheia

Muita amarga e calma,

Um líquido céu que semeia

Astros em minha alma!

tradução Jamil Almansur Haddad

As Litanias de Satã

tu, o Anjo mais belo e também o mais culto,

Deus que a sorte traiu e privou do seu culto,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Ó Príncipe do exílio a quem alguém fez mal,

E que, vencido, sempre te ergues mais brutal,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que vês tudo, ó rei das coisas subterrâneas,

Charlatão familiar das humanas insânias,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, mesmo ao leproso, ao paria infame, ao réu

Ensinas pelo amor às delícias do Céu,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que da morte, tua velha e forte amante,

Engendraste a Esperança, – a louca fascinante!

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que dás ao proscrito esse alto e calmo olhar

Que faz ao pé da forca o povo desvairar,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que sabes onde é que em terras invejosas

O Deus ciumento esconde as pedras preciosas.

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu cuja larga mão oculta os precipícios,

Ao sonâmbulo a errar na orla dos edifícios,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, magicamente, abrandas como mel

Os velhos ossos do ébrio moído num tropel,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu, que ao homem que é fraco e sofre deste o alvitre

De poder misturar ao enxofre o salitre,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que pões tua marca, ó cúmplice sutil,

Sobre a fronte do Creso implacável e vil,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, abrindo a alma e o olhar das raparigas a ambos

Dás o culto da chaga e o amor pelos molambos,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Do exilado bordão, lanterna do inventor,

Confessor do enforcado e do conspirador,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria !

Pai adotivo que és dos que, furioso, o Mestre

O deus Padre, expulsou do paraíso terrestre

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria !

Biografia

Charles-Pierre Baudelaire (Paris 9 abr 1821 – Paris 31 ago 1867). A morte de seu pai e as segundas núpcias de sua mãe marcaram os primeiros anos de sua vida. Obrigado pela sua família, que não admite sua paixão pela literatura, realiza uma longa viagem pelo oriente, em 1841. Um ano depois, regressa a Paris, onde vive de forma boemia e se relaciona com outros escritores. Seus artigos publicados na imprensa servirão para que Baudelaire fuja da pobreza. Em 1845 publica “os Salões”, uma crítica artística aos pintores e criadores que dominavam o panorama artístico parisiense da época. As traduções das obras de Edgar Allan Poe, autor por quem Baudelaire tinha grande admiração, Foi outra de suas principais ocupações. Herdeiro de uma grande fortuna, seu estilo de vida desregrado e excêntrico o levou à ruína e à morte aos 46 anos. O livro “Flores do Mal”, que escreveu em 1857, aborda os males do homem e da sociedade, o bra que o levaria aos tribunais, ao ser considerado um atentado contra a moralidade. Em sua produção literária destacam-se também Os Paraísos Artificiais (1860), Pequenos Poemas em Prosa e Meu Coração a Nu. Romântico para uns, simbolista para outros, Baudelaire se coloca como uma das mais importantes figuras da literatura francesa.

Baudelaire

O Albatroz

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem

Pegam um albatroz, enorme ave marinha,

Que segue, companheiro indolente de viagem,

O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,

Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,

Deixa doridamente as grandes e alvas asas

Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!

Ave tão bela, como está cômica e feia!

Um o irrita chegando ao seu bico em cachimbo,

Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O poeta é semelhante ao príncipe da altura

Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;

Exilado no chão, em meio à corja impura,

A asa de gigante impedem-no de andar.

Tradução de Guilherme de Almeida

O Gato

Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço;

Guarda essas garras devagar,

E nos teus belos olhos de ágata e aço

Deixa-me aos poucos mergulhar.

Quando meus dedos cobrem de carícias

Tua cabeça e o dócil torso,

E minha mão se embriaga nas delícias

De afagar-te o elétrico dorso,

Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo

Como o teu, amável felino,

Qual dardo dilacera e fere fundo,

E, dos pés a cabeca, um fino

Ar sutil, um perfume que envenena

Envolvem-lhe a carne morena.

 

Epílogo

 

De coração contente escalei a montanha,

De onde se vê — prisão, hospital, lupanar,

Inferno, purgatório — a cidade tamanha,

Em que o vício, como uma flor, floresce no ar.

Bem sabes, ó Satanás, senhor de minha sina,

Que não vim ter aqui para lagrimejar.

Como o amásio senil de velha concubina,

Vim para me embriagar da meretriz enorme,

Cujo encanto infernal me remoça e fascina.

Quer quando em seus lençõies matinais ela dorme,

Rouca, obscura, pesada, ou quando em rosicleres

E áureos brilhos venais pompeia uniforme,

•  amo-a, a infame capital — Às vezes dais,

Ó prostitutas e facínoras, prazeres

Que nunca há de entender o comum dos mortais.

Tradução de Manuel Bandeira e Righi De Marco

O Morto Alegre

Na planície em que o lento caracol vagueia,

Quero eu mesmo cavar um buraco bem fundo,

Onde possam meus ossos repousar na areia,

Como o esqualo a dormir no pélago profundo.

Odeio o testamento e a tumba me nauseia;

Ao invés de implorar uma lágrima ao mundo,

Prefiro em vida dar aos corvos como ceia

Os trapos que me pendem do esqueleto imundo.

Ó vermes! vós a que não chegam luz ou ruído,

Eis que vos toca um morto alegre e destemido;

Filhos da podridão, demiurgos do artifício,

Vinde pois sem remorso ungir-me os membros tortos,

E dizei-me depois se resta algum suplício

A este corpo sem alma e morto dentre os mortos

O Relógio

Os chineses vêem as horas pelos olhos dos gatos.

Certo dia, um missionário, passeando no distrito de Nanquim,

notou que havia esquecido o relógio e perguntou as horas a um rapazinho.

Ao primeiro instante, o garoto do Celeste Império hesitou;

depois, pensando melhor, respondeu:

-Vou dizer.

Decorridos alguns momentos, reaparecia, segurando nos braços um gato,

muito gordo; e, fitando o animal, como se usa dizer, no branco do olho,

afirmou sem hesitação:

-Ainda não é exatamente meio dia.

E era verdade.

Por mim, ao inclinar-me para a bela Felina, a de nome tão adequado,

aquela que é ao mesmo tempo a honra do seu sexo, o orgulho do meu coração e o perfume do meu espírito,

-quer de noite, quer de dia, em plena luz ou na sombra opaca,

no fundo de seus olhos adoráveis

vejo sempre, nitidamente, a hora, sempre a mesma, uma hora vasta, solene,

grande como o espaço, sem divisões de

minutos nem de segundos, uma hora imóvel que não é marcada nos relógios,

e todavia leve como um suspiro, rápida como um olhar.

E, se algum importuno me viesse interromper enquanto o meu olhar repousa sobre

este delicioso relógio, se algum Gênio descortês

e intolerante, algum Demônio do contratempo me viesse dizer:

-“Que é que estás a mirar com tamanha atenção?

Que buscas nos olhos dessa criatura? Vês acaso neles a hora,

mortal prodígio e vagabundo?”

– eu responderia sem hesitar:-“Sim, vejo a hora: é a Eternidade.”

Pois não é, senhora, que fiz um madrigal verdadeiramente

meritório e tão cheio de ênfase quanto vós mesma?

Na verdade, tive tanto prazer em bordar esta preciosa galanteria que não

o vos pedirei nada em troca.

 

A Alma do Vinho

A alma do vinho assim cantava nas garrafas:

“Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,

Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas,

Um cântico em que há só fraternidade e luz!

Bem sei quanto custa, na colina incendida,

De causticante sol, de suor e de labor,

Para fazer minha alma e engendrar minha vida;

Mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,

Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo

À goela do homem que já trabalhou demais,

E seu peito abrasante é doce tumba que acho

Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.

Não ouves retinir a domingueira toada

E esperanças ungir em meu seio, febris?

Cotovelos na mesa e manga arregaçada,

Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:

Hei de acender-te o olhar da esposa embevecida;

A teu filho farei voltar a força e a cor

E serei para tão tenro atleta da vida

Como o óleo que os tendões enrija ao lutador.

Sobre ti tombarei, vegetal ambrosia,

Grão precioso que lança o eterno Semeador,

Para que enfim do nosso amor nasça a poesia

Que até Deus subirá como uma rara flor!”

Tradução Guilherme de Almeida

 

A Serpente que Dança

Que eu te amo ver, lânguida amante,

Do corpo que excele

Como um tecido vacilante,

Transluzir a pele!

Sobre o teu cabelo profundo

De acre, perfumado,

mar odorante e vagabundo,

Moreno e azulado,

Como um navio que desponta,

Ao vento matutino

Em sonho minha alma se apronta,

Para um céu sem destino.

Nos teus olhos ninguém lobriga

Doçura ou martírio,

São jóias frias que são liga

De ouro e letargírio.

Ao ver teu corpo que balança,

Bela de exaustão,

Dir-se-ia serpente que dança

Em torno de um bastão.

Todos os ócios com certeza

Tua fronte movem

Que passeia com a moleza

De elefante jovem,

E o teu corpo se alonga e pende

Tal nave se mágoas,

Que as margens deixa e após estende

Suas vergas na água.

Onda crescida da fusão

De gelos frementes

Se a água de tua boca então

Alcança os teus dentes,

Bebo uma taça rubra e cheia

Muita amarga e calma,

Um líquido céu que semeia

Astros em minha alma!

tradução Jamil Almansur Haddad

 

As Litanias de Satã

tu, o Anjo mais belo e também o mais culto,

Deus que a sorte traiu e privou do seu culto,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Ó Príncipe do exílio a quem alguém fez mal,

E que, vencido, sempre te ergues mais brutal,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que vês tudo, ó rei das coisas subterrâneas,

Charlatão familiar das humanas insânias,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, mesmo ao leproso, ao paria infame, ao réu

Ensinas pelo amor às delícias do Céu,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que da morte, tua velha e forte amante,

Engendraste a Esperança, – a louca fascinante!

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que dás ao proscrito esse alto e calmo olhar

Que faz ao pé da forca o povo desvairar,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que sabes onde é que em terras invejosas

O Deus ciumento esconde as pedras preciosas.

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu cuja larga mão oculta os precipícios,

Ao sonâmbulo a errar na orla dos edifícios,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, magicamente, abrandas como mel

Os velhos ossos do ébrio moído num tropel,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu, que ao homem que é fraco e sofre deste o alvitre

De poder misturar ao enxofre o salitre,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que pões tua marca, ó cúmplice sutil,

Sobre a fronte do Creso implacável e vil,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, abrindo a alma e o olhar das raparigas a ambos

Dás o culto da chaga e o amor pelos molambos,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Do exilado bordão, lanterna do inventor,

Confessor do enforcado e do conspirador,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria !

Pai adotivo que és dos que, furioso, o Mestre

O deus Padre, expulsou do paraíso terrestre

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria !

Biografia

Charles-Pierre Baudelaire (Paris 9 abr 1821 – Paris 31 ago 1867). A morte de seu pai e as segundas núpcias de sua mãe marcaram os primeiros anos de sua vida. Obrigado pela sua família, que não admite sua paixão pela literatura, realiza uma longa viagem pelo oriente, em 1841. Um ano depois, regressa a Paris, onde vive de forma boemia e se relaciona com outros escritores. Seus artigos publicados na imprensa servirão para que Baudelaire fuja da pobreza. Em 1845 publica “os Salões”, uma crítica artística aos pintores e criadores que dominavam o panorama artístico parisiense da época. As traduções das obras de Edgar Allan Poe, autor por quem Baudelaire tinha grande admiração, Foi outra de suas principais ocupações. Herdeiro de uma grande fortuna, seu estilo de vida desregrado e excêntrico o levou à ruína e à morte aos 46 anos. O livro “Flores do Mal”, que escreveu em 1857, aborda os males do homem e da sociedade, o bra que o levaria aos tribunais, ao ser considerado um atentado contra a moralidade. Em sua produção literária destacam-se também Os Paraísos Artificiais (1860), Pequenos Poemas em Prosa e Meu Coração a Nu. Romântico para uns, simbolista para outros, Baudelaire se coloca como uma das mais importantes figuras da literatura francesa.