Bueno de Rivera

O Microscópio

O olho no microscópio
vê o outro lado, é solene
sondando o indefinível.

Dramática a paciência
do olho através da lente,
buscando o mundo da lâmina.

A tosse espera a sentença,
o leito aguarda a resposta.
O tísico pensa na morte.

O silêncio é puro e o frio
envolve o laboratório.
Os frascos tremem de susto.

O infinito dos germes
reflete o olho imenso
que pousa na objetiva.

O avental se levanta.
Os dedos inconscientes
escrevem a palavra rápida.

O resultado terrível
entra nos óculos do médico
e ele diz: positivo.

O doente tira o lenço.
Aperta a mulher e o filho,
chora no ombro da esposa.

Imagina a reclusão
no sanatório, a saudade
e o vento no quarto branco.

Olha o papel: positivo.
Cresce a palavra com a tosse.
A febre queima a esperança.

O microscopista, no entanto,
conta anedotas no bar.
Está alheio e feliz.

Não sabe que o olho esquerdo
ditou a sentença e a morte.
Paga o café e caminha.

In: Mundo Submerso (1944)

 

Amar como as plantas

Amar como amam os mamoeiros
separados de muros
mas pulsando raízes, folha e frutos
no silêncio dos quintais

Amar como as plantas amam, ignoradas
pelos homens e os gatos.
Amor de êxtase, sem ferir
o sono dos ninhos
e o pudor dos outros animais.

Amar como os mamoeiros, angustiados
suando orvalho no amanhecer.
Fazer confidência, usando o código
fabuloso da abelha,
ou enviar convites para o sonho
no tráfego noturno das formigas.

Amar como amam as plantas, fecundar
no voo dos pássaros
e no vento cúmplice.

Amara como os mamoeiros amam
com esse amor casto e fundo,
amor de contida violência
com o silencioso orgasmo
da criação do mundo

In: Poemas Inéditos, Seleção de Afonso Romano de Sant’Anna. São Paulo: Global, 2003. 

A Dança dos Obesos

Felizes são os obesos! Vede como dançam
no tapete dos humilhados!

No entanto, são feitos do mesmo limo.
Nossa angústia os alimenta,
nosso gemido é a sua música, e eles não percebem
a melodia subterrânea.
Moldamos em nosso  ódio as suas faces,
são nossos semelhantes, inconscientes nos esmagam.

Deixai dançar os obesos no crepúsculo.
Eles ignoram a noite absoluta
que rolará da montanha sobre as pérgolas.

Deixai-os. Vinde também à nossa festa.
Agora que a treva mergulha nas piscinas,
dançarão sobre o pântanos
os esqueletos de cal.

In: Luz do Pântano (1948)

Biografia

Nasceu em Santo Antônio do Monte (3 abr 1911) e faleceu em  Belo Horizonte (25 jun 1982).Odorico Bueno de Rivera Filho, mais conhecido por Bueno de Rivera veio para Belo Horizonte ainda moço, onde trabalhou como tipógrafo durante muitos anos. Foi também microscopista do Serviço de Saúde, época que relembra em seu poema “O Microscópio”. J. G. de Araújo Jorge o reputou ainda como “um dos mais famosos speakers de Minas”, tendo trabalhado por muitos anos ao microfone da Rádio Mineira.
Em 1950, Rivera lançou o “Guia Rivera” lhe deu independência financeira. Tinha uma vida pacata na capital mineira ao lado da esposa Ângela, e mantinha correspondência com os grandes editores do país, sendo considerado um dos principais nomes dentro da Geração 45.
Obras: Mundo Submerso (1944), Luz do Pântano (1948) e Pasto de Pedra (1971).