A Escola Sem Partido é um retrocesso!

Escola sem Partido | Arnaldo Godoy

A Escola sem Partido é retroceder no avanço da cidadania, no reconhecimento da diversidade e no direito de todos, independente de religião, orientação sexual, cor da pele ou posição política.

 

“Penso, logo existo”. O postulado filosófico do matemático francês René Descartes, dito há mais de quatro séculos, constitui um marco ao colocar a razão humana como única forma de existência. Desde muito o pensamento constitui a base de todo o desenvolvimento humano e material, seja na comunicação, transportes, artes, história, medicina, engenharia… Tudo que existe, portanto, é em razão do questionamento de um modelo vigente, seguido do exercício crítico que sempre encontra um novo caminho.

 

No campo das ciências humanas, o conflito entre os pensamentos é ainda mais essencial. É isso que faz com que as teorias sejam formuladas, testadas, descartadas ou aceitas pela maioria. O espírito crítico é a força motriz que move as novas ideias “preciso duvidar para crer”, registrou Agostinho de Hipona. Mas o que esperar, se, de repente, o exercício do contraditório for banido das salas de aula?

 

É justamente isso que um grupo de conservadores, ligados a linhas religiosas fundamentalistas querem fazer. Pelo texto apresentado pelo senador Magno Malta, (PLS 193/16), doravante os professores estarão proibidos de conduzir discussões críticas nas salas de aula, principalmente nas questões de gênero.

 

No âmbito jurídico, o projeto já é reprovado, pois fere o artigo 206 da Constituição, que garante liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber, além de pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas. Portanto, o projeto apelidaram “Escola sem Partido” cerceia a pluralidade de ideias e liberdade de expressão e de pensamento.

 

Mas há um elemento muito mais nocivo por detrás desta proposta, que se multiplica em todas as casas legislativas do país (inclusive em BH, por meio da apresentação do PL 1911/16, do vereador Sérgio Fernando, do Partido Verde): retroceder no avanço da cidadania, no reconhecimento da diversidade e no direito de todos, independente de religião, orientação sexual, cor da pele ou posição política.

 

A tal “Escola Sem Partido” é um plano ardiloso, que retira a prerrogativa do ensino das salas de aula e o coloca sob o controle dos pais, muitas vezes, reprodutores de um sistema conservador. Esse é o velho sonho das ditaduras — adestrar mão de obra formada por futuros cidadãos acríticos e não-participativos. Querem impedir que as escolas discutam a conjuntura atual e a vida como ela é – abordando religião, geopolítica, história, sexo, desigualdade sociais e todas as questões necessárias para formar um cidadão ciente e com opinião acerca dos problemas que o mundo enfrenta.

 

Se o projeto vingar, o Brasil estará formando pessoas sem voz, sem liberdade, sem divergência, sem questionamento, sem cidadania e sem educação. Uma educação que exclua saberes, valores e conhecimentos, limitando o desenvolvimento pleno de jovens, revelando a eles apenas uma versão limitada do mundo, não os fará pensar e, assim, não os permitirá existir.