Eu também cansei

“A campanha “Cansei”, promovida pela OAB/SP e por setor do alto empresariado nacional, auto-intitulada “movimento cívico pelo direito dos brasileiros” , convoca os cansados em geral a fazer um minuto de silêncio às 13h00 de hoje “pelo bem do Brasil”.

Não contem comigo: não vou fazer um minuto de silêncio nem vou bater panelas, pois cansei mesmo foi das campanhas “da paz”, campanhas “contra o governo” e sobretudo das campanhas do tipo “Cansei”. Cansei também dos berros da classe média, oprimida entre os ricos e o crime organizado, se achando o umbigo do universo.

Cansei da classe média incapaz de se ver refletida no espelho que é a política, sem a dignidade de assumir que a corrupção que tanto critica nos “outros” é, em sua origem, a mesmíssima daquele que desembolsa cinqüenta reais para não ser multado, que atravessa o sinal vermelho porque não tem guarda olhando e que faz ultrapassagem pelo acostamento na volta do feriadão.

Cansei da classe média que só enxerga a corrupção dos políticos mas é cega e complacente com empresários corruptores e sonegadores de impostos. Cansei da classe média que não se dá conta que a moral só existe na primeira pessoa e que o resto é moralismo (para quem negocia com o dinheiro público, seja político ou empresário, desejo apenas a aplicação da lei). Cansei da classe média pedindo o retorno de governo autoritário, de direita ou de esquerda, pouco me importa, para”moralizar essa bagunça”. Era só o que faltava.

Cansei da classe média disparando e-mails ideológicos e confundindo isso com consciência política. Cansei da classe média com acesso a ensino de qualidade mas que só lê, quando lê, o mesmo jornal, a mesma revista de sempre e nunca leu Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau, Marx, Proudhon ou Weber. Não precisava sequer ler na fonte, bastava pegar um livro introdutório para entender algumas das divergências entre tantos autores geniais, atentos às riquezas e misérias da formação daquilo que chamamos hoje de Estado moderno, situando-se um pouco melhor no mundo em que vivemos.

Cansei de uma classe média que odeia a política pelo erro primário e cristão de confundir seres humanos com anjos, o que é uma receita para a decepção, pois é óbvio que homens não são anjos e, portanto, precisamos de política, este mal necessário. Cansei do mesmo bom-mocismo que divide o mundo de forma maniqueísta: o “Bem” está com a classe média, o “Mal” está com os políticos, aqueles estranhos seres corruptos que vieram de outro planeta e precisam ser exterminados.

Cansei também de achar que o Brasil é uma porcaria maior do que outros países (não é mais nem menos porcaria que EUA, Cuba, França, Canadá, Japão, Austrália, Espanha, Itália ou Suíça). O Brasil tem suas contradições (como qualquer país) e uma delas é ser uma força econômica com péssima distribuição de renda. Aqui a noção de poder legal (Weber) ainda é subversiva e o capitalismo é selvagem. E uma hora os pobres virão mesmo cobrar o que é deles.

Agora agüenta, classe média: a incompetência também é nossa e não só dos políticos. Agora agüenta, elite blindada e herdeira de nossa tradição autoritária: a má distribuição de renda é um problema coletivo; a indústria dos carros blindados e dos condomínios murados, uma solução individual (e individualista) . Mas essa equação não fecha: não há soluções individuais para problemas coletivos.

Em suma: como advogado paulista não me sinto”representado” aqui pela OAB/SP (não foi com o meu aval que esta entidade uniu-se à “indignação” de um empresário como João Dória Junior, a quem apraz promover desfile de cachorros de madame em Campos de Jordão). Como cidadão, não vejo nada de “cívico” nesse movimento, orquestrado sabe-se lá com qual verdadeira finalidade. E se uma dessas finalidades for um movimento “fora Lula”, sou contra, assim como era contra o”fora FHC”, não por simpatia política, mas por convicção democrática.

Antes que me perguntem qual é, afinal, a solução para todos os problemas de nosso país, respondo o óbvio: não sei. Sei apenas que não existe mágica. Fiquemos, pois, com a política e façamos dela a nossa responsabilidade (e não apenas a responsabilidade dos “outros”, os políticos), conscientes de que no meio do caminho há pedras. Sempre haverá pedras no meio do caminho.

Hoje, portanto, não bato panelas nem faço um minuto de silêncio. Há exatos 20 anos, aliás, morria Drummond. Às 13h00 de hoje, em homenagem ao poeta, chutarei uma pedra na rua. Ao anoitecer, porém, saberei que “é a hora dos corvos, bicando em mim meu passado, meu futuro, meu degredo: desta hora, sim, tenho medo”.

Publicado em 18|08 pelo(a) wiki repórter Dom Quixote de la Prensa ,
São Paulo-SP