José Paulo Paes

A Casa

Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.

Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina.
Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo.
Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos.
No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha.
Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão.
Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família.
Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo.
No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguais rachando lenha.
E no telhado um menino medroso que espia todos eles;
só que está vivo: trouxe-o até ali o pássaro dos sonhos.
Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa.

Antes que ele acorde e se descubra também morto.

 

Acima de Qualquer Suspeita

A poesia está morta
mas juro que não fui eu

eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la

imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres car-
los drummond de andrade manuel bandeira murilo
mendes vladmir maiakóvski joão cabral de melo neto
paul éluard oswald de andrade guillaume appolinaire
sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos

não adiantou nada

em desespero de causa cheguei a imitar um certo (ou
incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada
de ferro araraquarense

porém ribeirãozinho mudou de nome a estrada de ferro
araraquarense foi extinta e josé paulo paes parece
nunca ter existido

nem eu

 

Convite


Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.
Só que
bola, papagaio,pião
de tanto brincar
se gastam.

As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.

Como a água do rio
que é água sempre nova.

Como cada dia
que é sempre um novo dia.

Vamos brincar de poesia?


Passarinho fofoqueiro

 

Um passarinho me contou

que a ostra é muito fechada,

que a cobra é muito enrolada,

que a arara é uma cabeça oca,

e que o leão marinho e a foca…

xô , passarinho! chega de fofoca!

Biografia

José Paulo Paes (Taquaritinga SP 1926 – São Paulo SP 1998) publicou seu primeiro livro de poesia, O Aluno, em 1947. No ano seguinte completou o curso superior de Química Industrial em Curitiba PR. No período, colaborou na revista Joaquim e participou no II Congresso Brasileiro de Escritores, em Belo Horizonte MG, como membro da delegação do Paraná. Nas décadas posteriores foi colaborador de vários periódicos, entre os quais Folha de S.Paulo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense. Em 1967 organizou, com Massaud Moisés, o Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira. Foi tradutor prestigiado; verteu para o português obras de escritores como Laurence Sterne, Lewis Carroll e Nikos Kazantzákis. Em 1987 tornou-se diretor da oficina de tradução de poesia no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Publicou diversos livros de ensaio, além de obras para crianças; foi laureado com prêmios como o Jabuti de Literatura Infantil, concedido em 1991 para seu livro Poemas para Brincar. Sua obra poética inclui os livros Meia Palavra (1973), Resíduo (1980), A meu Esmo (1995) e Socráticas (2001), entre outros. Sobre a poesia de José Paulo Paes, que é de tendência contemporânea, afirmou o crítico Alfredo Bosi: “o metro curto, o ritmo rápido, a sintaxe cortada e o tom menor vedam o texto a qualquer inflexão épica. (…) Canto chão dos revoltosos, epitáfio de indomados, descobre o lado subterrâneo da sátira e o veio amargo do seu pathos.”