Luiz de Camões

Soneto 30

 

Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

 

mas não servia ao pai, servia a ela,

e a ela só por prêmio pretendia.

 

Os dias, na esperança de um só dia,

passava, contentando se com vê-la;

porém o pai, usando de cautela,

em lugar de Raquel lhe dava Lia.

 

Vendo o triste pastor que com enganos

lhe fora assim negada a sua pastora,

como se a não tivera merecida;

 

começa de servir outros sete anos,

dizendo:—Mais servira, se não fora

para tão longo amor tão curta a vida.

 

 

Os Lusíadas (Canto I)

No mar, tanta tormenta e tanto dano,

Tantas vezes a morte apercebida!

Na terra, tanta guerra, tanto engano,

Tanta necessidade aborrecida!

Onde pode acolher-se um fraco humano?

Onde terá segura a curta vida?

Que não se arme e se indigne o Céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno.

 

 

 

Biografia

 

Luís Vaz de Camões nasceu provavelmente em Lisboa, em 1524 ou 1525, é considerado o maior poeta renascentista português e uma das mais expressivas vozes de nossa língua. Sobre sua vida pessoal pouco se sabe com certeza; tinha possível ascendência fidalga, mas não era rico.

Participou de campanhas militares no norte da África; perdeu o olho direito em Ceuta (Marrocos), em combate.

Regressando a Lisboa, freqüentou reuniões da nobreza cortesã e a boêmia lisboeta.

Camões foi preso em 1552 em virtude de ter ferido em uma briga um servidor do paço, e foi desterrado para o Oriente em 1553.

Durante três anos prestou serviço militar na Índia, seguindo depois para Macau, na China, em cargo burocrático da Justiça.

Segundo a lenda, o poeta teria perdido uma namorada chinesa, Dinamene, em naufrágio, quando regressava de Macau. Nadando com apenas um braço, conseguiu salvar os manuscritos de seu poema épico, Os Lusíadas.

A obra “Os Lusíadas”, foi publicada em 1572 e Camões passou a receber irregularmente uma pensão (“tença”, nos termos da época) do governo português.

Faleceu bem pobre em Lisboa, em 1580.

A obra poética de Camões abrange uma extensa produção lírica, escrita tanto nas formas poéticas tradicionais, de origem medieval (a “medida velha” – versos redondilhos maiores e menores), como nas formas de feição clássica e italianizante (a “medida nova” – versos decassílabos).

Pouquíssimos poemas líricos foram publicados durante sua vida; somente em 1595 surgiram as Rimas, reunindo poemas coletados em diversos cancioneiros manuscritos. Ainda hoje há dificuldades para se delimitar precisamente a produção lírica do poeta.