Luiz Guimarães Júnior

Visita a Casa Paterna

Como a ave que volta ao ninho antigo,
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei.  Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma talvez do amor materno,
Tomou-me as mãos — olhou-me grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo.

Era esta sala… (Oh! se me lembro! e quanto!)
Em que da luz noturna à claridade,
Minhas irmãs e minha mãe…   O pranto

Jorrou-me em ondas…  Resistir quem há-de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade.

 

 

História de um Cão

Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso,revoltante, imundo;
Para dizer numa palavra tudo,
Foi o mais feio cão que houve no mundo.

Recebi-o das mãos de um camarada,
Na hora da partida. O cão gemendo
Não queria me acompanhar por nada:
Enfim -mau grado seu- o vim trazendo.

O meu amigo,cabisbaixo, mudo,
Olhava-o…o sol nas ondas se abismava…
“Adeus!” -me disse,- e ao afagar Veludo,
Nos olhos seus o pranto borbulhava.

“Trata-o bem. Verás como o rafeiro
Te indicará os mais sutis perigos;
Adeus! E que este amigo verdadeiro
Te console no mundo ermo de amigos”.

Veludo a custo habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.

Nas longas noites de luar brilhante,
Febril, convulso,trêmulo, agitando
A sua calda – caminhava errante,
À luz da lua – tristemente uivando

Toussenel, Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores,
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.

Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
Cinco meses depois, do meu amigo
Um envelope fartamente cheio:
Era uma carta. Carta! era um artigo.

Contendo  a narração miúda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em rios, árvores gigantes:

Gabava o steamer que o levou; dizia
Que ia tentar inúmeras empresas:
Contava-me também que a bordo havia
Toda a sorte de risos e belezas
………………………………………………….

Finalmente, por baixo disso tudo,
Em nota a bem do melhor cursivo,
Recomendava o pobre Veludo,
Pedindo a Deus que o conservasse vivo.

Enquanto eu lia, o cão, tranqüilo e atento,
Me contemplava, e -creia que é verdade,
Vi, comovido, vi neste momento
Seus olhos gotejarem de saudade.

Depois lambeu-me as mãos humildemente,
Estendeu-se aos meus pés silencioso,
Movendo a cauda, -e adormeceu contente.
Farto dum puro e satisfeito gozo.

Passou-se o tempo. Finalmente um dia
Vi-me livre daquele companheiro;
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher dum velho carvoeiro.

E respirei: “Graças a Deus já posso”
Dizia eu “viver neste bom mundo,
Sem ter que dar diariamente um osso
A bicho vil, a um feio cão imundo”.

Gosto de animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora,
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca cismadora.

Mal respirei, porém! Quando dormia,
E a negra noite amordalhava tudo,
Senti que à minha porta alguém batia:
Fui ver quem era. Abri. Era Veludo.

Saltou-me às mãos lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda à casa satisfeito:
E -de cansado- foi rolar dormindo,
Como uma pedra junto do meu leito.

Praguejei furioso. Era execrável
Suportar esse hóspede importuno,
Que me seguia como o miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.

E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo:
Para livrar desse cão leproso,
Havia um meio só: era matá-lo.

Zunia a asa fúnebre dos ventos;
Ao longe o mar na solidão gemendo,
Arrebentava em uivos e lamentos…
De instante a instante ia o tufão crescendo.

Chamei Veludo: ele seguiu-me. Entanto
A fremente borrasca me  arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava.

Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vogamos;
Dava-me força o torvo pensamento:
Peguei num remo- e com furor remamos.

Veludo à proa olhava-me choroso,
Como o cordeiro no final momento.
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.

No largo mar ergui-o nos meus braços,
E arremessei-o às ondas de repente…
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte! Era pungente!

Voltei à terra -entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profunda.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas, moribundo.

Mas, ao despir dos ombros meus o manto
Notei -oh! grande dor!- haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: -eu tinha-o unido
Contra o meu coração constantemente,
E conservava no maior recato,
Pois minha mãe me dera essa corrente,
E, suspenso à corrente, o seu retrato.

Certo caíra além mar profundo,
No eterno abismo que devora tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah! se Veludo

Duas vidas tivera,  — duas vidas
Eu arrancaria àquela besta morta,
E àquelas vis entranhas corrompidas!
Nisso senti uivar à minha porta.

Corri, abri…Era Veludo! Arfava:
Estendeu-se aos meus pés, – e docemente
Deixou cair da boca, que espumava,
A medalha suspensa da corrente.

Fora incrível, oh! Deus? -Ajoelhado
Junto ao cão – estupefato, absorto.
Palpei-lhe o corpo; estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.

 

 

Bibliografia

Luís Guimarães Júnior (L. Caetano G. J.), diplomata, poeta, romancista e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 17 de fevereiro de 1845, e faleceu em Lisboa, Portugal, em 20 de maio de 1898. Foi um dos dez membros eleitos para se completar o quadro de fundadores da Academia Brasileira de Letras. Era filho de Luís Caetano Pereira Guimarães, português, e de Albina de Moura, brasileira. Fez os primeiros estudos no Rio de Janeiro. Aos dezesseis anos escreveu o romance Lírio branco, dedicado a Machado de Assis. Cursou Direito no Recife entre 1864 e 1869, onde assistiu ao desenvolvimento da “escola condoreira”, em que tomou parte. Continuou a escrever, multiplicando-se no jornalismo e escrevendo livros de contos, comédias e poesias. Sua situação no jornalismo e nas letras, embora brilhante, não lhe proporcionava os meios para viver estavelmente. O poeta e amigo Pedro Luís, então ministro dos Negócios Estrangeiros, oferece-lhe um lugar na diplomacia como secretário de Legação em Londres. De 1873 a 1894, passou por vários outros postos, em Santiago do Chile, em Roma e em Lisboa. 

Obras: Lírio branco, romance (1862); Uma cena contemporânea, teatro (1862); Corimbos, poesia (1866); A família agulha, romance (1870); Noturnos, poesia (1872); Filigranas, ficção (1872); Sonetos e rimas, poesia (1880); Contos sem pretensão (1872); e várias peças de teatro. Fonte: biblio.com.br. A Biblioteca Virtual de Literatura