O que fazer para Belo Horizonte entrar no circuito dos grandes shows?

A inclusão de Belo Horizonte no circuito das atrações internacionais – ao lado de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, dentre outras capitais – pressupõe uma aproximação e diálogo entre os produtores culturais, o poder público e a iniciativa privada. É impossível imaginar realização de um grande evento sem que esses três atores estejam dialogando em torno de uma parceria benéfica para a cidade.

O cancelamento da Série Dell’Arte e do show de B.B King suscitaram uma saudável discussão sobre o cenário cultural de Belo Horizonte. Ainda que nos últimos dez anos Belo Horizonte tenha conquistado espaço no cenário cultural do país, é certo que a capital mineira está distante da programação cultural que merece. Contudo, esse cenário não existe por acaso e tampouco foi obra da Deliberação Normativa 4903, instituída pelo Conselho Municipal do Meio Ambiente.

Se hoje o poder público é apontado como o principal entrave para que a cidade receba atrações internacionais, há bem pouco tempo, o mal fadado “provincianismo” era gerado pelos produtores da cidade. Em função da falta de apoio da iniciativa privada e sempre muito cautelosos em relação a seus investimentos, os produtores estabeleceram uma margem alta para a venda de ingressos, o que, muitas vezes, inviabilizou e frustou o público que comprava os ingressos com antecedência e, à véspera do show, era informado do cancelamento em função da venda “insuficiente” de ingressos.

Por isso, a participação da iniciativa privada no patrocínio direto desses espetáculos é condição básica para que Belo Horizonte receba grandes artistas. E isso não é pedir demais ou sonhar alto porque, como já foi apontado por diversas pesquisas, investir em cultura é agregar um valor inestimável à imagem da empresa. Esperar que apenas a venda de ingressos cubra o custo de produção é jogar nas costas do público uma obrigação que se traduz, na prática, em ingressos extremamente caros que poucos terão acesso.

Já o poder público poderia encontrar um equilíbrio tanto no que diz respeito às exigências quanto aos encargos para a produção de grandes shows na cidade. Criar regras claras para que eventos de impacto – mais de 10 mil pessoas – sejam realizados é indispensável, mas isso é diferente de criar obstáculos. Por isso é importante que a comissão criada pelo Prefeito Fernando Pimentel e coordenada pelo procurador geral do município, Marco Antônio de Rezende Teixeira, reveja a Deliberação Normativa 4903 de forma a garantir a segurança e conforto do público sem inviabilizar a produção de tais eventos.

É necessário que os vários órgãos da Prefeitura envolvidos no licenciamento dos shows, bem como os Conselhos, o Corpo de Bombeiros e as entidades representativas do setor cultural, participem da discussão e revisão da Normativa. Desta forma, teremos o patrimônio público, o meio ambiente e a qualidade de vida na cidade preservados e, ao mesmo, iremos garantir ao público de Belo Horizonte o acesso à diferentes formas de expressão e linguagem, incluindo a cidade no circuito dos grandes shows e promovendo seu enriquecimento cultural.