Raul de Leoni

Legenda dos Dias

O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas… e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida
De achar o Ideal nalguma encruzilhada…

As horas morrem sobre as horas… Nada!
E ao Poente, o Homem com a sombra recolhida,
Volta pensando: Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada…”

Ontem, hoje, amanhã, depois e, assim,
mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;

E a Vida… efêmera e vazia:
Um adiamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia…

 

 

Crepuscular

Poente no meu jardim… O olhar profundo
Alongo sobre as árvores vazias,
Essas em cujo espírito infecundo
Soluçam silenciosas agonias

Assim estéreis, mansas e sombrias,
Sugerem à emoção com que as circundo
Todas as dolorosas utopias
De todos os filósofos do mundo.

Sugerem… Seus destinos são vizinhos:
Ambas, não dando frutos, abrem ninhos
Ao viandante exânime que as olhe.

Ninhos onde, vencidas de fadiga,
A alma ingênua dos pássaros se abriga
E a tristeza dos homens se recolhe…

 

História Antiga

No meu grande otimismo de inocente,
Eu nunca soube por que foi… um dia
Ela me olhou indiferentemente,
Perguntei-lhe por que era… Não sabia…

Desde então, transformou-se, de repente,
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para a frente…

Nunca mais nos falamos… vai distante…
Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante,
Em que seu mudo olhar no meu repousa,

E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,
Mas que é tarde demais para dizê-la…

 

Platônico

As idéias são seres superiores
— Almas recônditas de sensitivas —
Cheias de intimidades fugitivas,
De escrúpulos, melindres e pudores.

Por onde andares e por onde fores,
Cuidado com essas flores pensativas,
Que têm pólen, perfume, órgãos e cores
E sofrem mais que as outras cousas vivas.

Colhe-as na solidão… são obras-primas,
Que vieram de outros tempos e outros climas
Para os jardins de tua alma que transponho,

Para com elas teceres, na subida,
A coroa votiva do teu Sonho
E a legenda imperial da tua Vida.

 

Sabedoria

Tu que vives e passas, sem saber
O que é a vida nem por que é, que ignoras
Todos os fins e que, pensando, choras
Sobre o mistério do teu próprio Ser.

Não sofras mais à espera das auroras
Da suprema verdade a aparecer:
A verdade das cousas é o prazer
Que elas nos possam dar à flor das horas…

Essa outra que desejas, se ela existe,
Deve ser muito fria e quase triste,
Sem a graça encantada da incerteza…

Vê que a Vida afinal — sombras, vaidades —
É bela, é louca e bela, e que a Beleza
É a mais generosa das verdades…

 

Sei de Tudo o Que Existe Pelo Mundo

Sei de tudo o que existe pelo mundo.
A forma, o modo, o espírito e os destinos.
Sei da vida das almas e aprofundo
O mistério dos seres pequeninos.

Sei da ciência do espaço, sei o fundo
Da terra e os grandes mundos submarinos,
Sei o Sol, sei o Som e o elo profundo
Que há entre os passos humanos e os divinos.

Sei de todas as cousas, a teoria
Do Universo e as longínquas perspectivas
Que emergem da expressão das cousas vivas.

Sei de tudo e — oh! tristíssima ironia! —
Pelo caminho terno por que vou,
Eu, que sei tudo, só não sei quem sou…

Bibliografia
Raul de Leoni (Petrópolis, 30 de outubro de 1895 — Itaipava, 21 de novembro de 1926). Concluiu os cursos primário e secundário no Rio de Janeiro, viajando ainda adolescente pela Europa. Tornou-se diplomata em 1917. Com Ode a um poeta morto, 1919, conquistou fama nos meios literários. Pouco depois de eleito deputado fluminense, retirou-se para Itaipava, onde pretendia curar-se da tuberculose que o vitimou. Antes, publicou Luz Mediterrânea, 1922. Após a sua morte em Itaipava seu corpo foi conduzido para Petrópolis, que lhe prestou suas últimas homenagens, sepultando-o à sombra do Cruzeiro das Almas, erigindo-lhe um mausoléu e dando o seu nome a um trecho da Rua Sete de Setembro.