Voltando ao caminho com Maiakovski*

Os mais jovens certamente não conhecem. Dos mais antigos, alguns tiveram um poster na parede com o poema que começava pelos versos: “Na primeira noite, eles se aproximam/ e roubam uma flor de nosso jardim./ E não dizemos nada…”.

Na lembrança dos sessentões que viveram os duros tempos da ditadura, os versos do falso Maiakovski ressurgem com a demissão de Dirceu Greco de uma diretoria do Ministério da Saúde.

Dirceu respondia pelo departamento de DST, Aids e Hepatites Virais. Motivo: a veiculação de uma campanha de prevenção a doenças sexualmente transmissíveis, com foco nas prostitutas, utilizando as redes sociais. Motivo verdadeiro: em uma das peças havia uma foto de mulher afirmando “eu sou feliz sendo prostituta”. Outro motivo verdadeiro: ao tomar conhecimento da campanha, a bancada evangélica entrou em campo exigindo cabeças.

Não vamos aqui discutir a campanha ou Dirceu Greco, professor da UFMG, mas, acima de tudo, um brilhante e corajoso defensor dos direitos daqueles que estão à margem, além de um belíssimo ser humano. Tampouco vamos discutir religiões ou os evangélicos.

Queremos é discutir o papel do PT e dos partidos ou setores que se apresentam como progressistas contra preconceitos e discriminações. Para evitar incursões longínquas no tempo, lembremos a última campanha presidencial que artificialmente trouxe para a ribalta um debate sobre aborto. Como a direção partidária se comportou como avestruz durante oito anos, lá foi nossa candidata Dilma participar de missas e cultos para renegar suas convicções – o que nela muito deve ter doído.

Mais grave, ainda, foi fazer com que as mulheres continuem a lhes ser negado o direito a decidirem sobre seu próprio corpo. A serem empurradas com culpa, para as carniçarias de plantão — aquelas, a grande maioria que não dispõe de dinheiro, que deveriam ser atendidas no sistema público de saúde. Até países de tradição religiosa mais forte que a nossa, mas que sabem o que é um estado laico, como Itália, Portugal e Espanha, tiraram o aborto das sombras. Ninguém defende o aborto como política anticoncepcional.

Mas mesmo a necessária difusão do uso de preservativos é torpedeada. Lembram-se da polêmica sobre o material que o MEC ensaiou distribuir nas escolas para combater o preconceito contra relacionamentos homoafetivos? Mais um recuo do governo e o silêncio do PT.

E a união estável entre pessoas do mesmo sexo que dormita há mais de uma década no Congresso? Foi preciso que o Supremo, extrapolando suas funções, o que é errado e perigoso pelo precedente, decidisse o óbvio. Pela Constituição e pelo respeito às diferenças, as escolhas são livres. E se vivemos em uma sociedade de contratos, se os tempos mudam (e com eles as famílias), nada mais razoável que o contrato “casamento” valha para todos. Em que momento os progressistas saíram em campo, de fato, empunhado a bandeira do fim às discriminações? (Participar de parada gay é bom, mas não vale).

Saindo de nosso quintal, lembremos a experiência recente vivida pelos americanos durante governo Bush. O crescimento do fundamentalismo religioso fez com que Darwin, aquele mesmo da “Origem das Espécies” — uma unanimidade, coisa rara na ciência — fosse trocado em várias escolas pela teoria criacionista. Na mesma linha, o governo Bush cortou os investimentos destinados a pesquisas com células-tronco, submetendo toda a sociedade a uma particular visão religiosa.

A questão das células-tronco também foi discutida no Brasil. Tudo bem que o PT e o nosso governo não tenham que responder pelos erros de Bush. Mas aqui, mais uma vez, a decisão, que deveria ter saído pelo voto dos representantes do povo, veio pelo Supremo.

Poderíamos falar das legislações ambientais, sancionadas por governos do PT e outros progressistas, que abrem exceção aos decibéis que emanam dos templos, como se nossos ouvidos fossem seletivos e sofressem menos quando o ruído é abençoado.

Mas queremos falar é do exemplo recente do pastor Feliciano. Um ilustre desconhecido, de um partido idem — a proliferação de siglas que nada representam além dos interesses de seus donos ou sócios é outra responsabilidade nossa —, só chega à presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara porque os nossos deixaram. Simples assim.

Alguém lembrou, dia desses, que o exercício da democracia acontece nas mobilizações de rua. É na praça, território público por excelência, que os verdadeiros combates acontecem. Nada contra discursos no parlamento, notas oficiais ou mobilizações nas redes sociais. Eles são importantíssimos. Mas sem rua, nada muda. Valores, e é deles que se trata aqui, não se garantem com aumento de renda. São conquistas civilizatórias que estão sendo ameaçados.

A propósito de mudanças, o poema do início, continua assim:

Na segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada (…).

Arnaldo Godoy e Carlão Pereira

[1] Este é o nome de um poema escrito nos anos 1960 pelo fluminense Eduardo Alves da Costa, que por muitos anos foi atribuído ao poeta russo Wladimir Maiakovski.